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		<title>O SOCIALISMO NA UTI</title>
		<link>http://historianet.wordpress.com/2008/02/21/manifesto-o-socialismo-na-uti/</link>
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		<pubDate>Thu, 21 Feb 2008 05:06:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>tiago22</dc:creator>
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		<description><![CDATA[O socialismo está morrendo. Essa é a avaliação que muitos intelectuais de direita, e mesmo alguns de esquerda, estão fazendo sobre o atual momento do poder de adesão dos preceitos marxistas. Os fatores? São muitos, mas o mais óbvio e o mais poderoso reside claramente na hegemonia neoliberal, especialmente a partir da segunda metade do [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=historianet.wordpress.com&amp;blog=2932322&amp;post=3&amp;subd=historianet&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div style="font-family:Verdana,Arial,Helvetica,sans-serif;font-size:10pt;text-align:justify;">O socialismo está morrendo. Essa é a avaliação que muitos intelectuais de  direita, e mesmo alguns de esquerda, estão fazendo sobre o atual momento do  poder de adesão dos preceitos marxistas. Os fatores? São muitos, mas o mais  óbvio e o mais poderoso reside claramente na hegemonia neoliberal,  especialmente a partir da segunda metade do século XX.Diferente de muitas previsões históricas, o capitalismo continua de pé e  muito vigoroso por sinal. Na mesma intensidade que este produz mercadorias,  também produz desigualdade. Mas isso todos nós sabemos, até mesmo os adeptos a  esse sistema econômico-social também sabem. Ainda que tenhamos uma visão  superficial e fragmentada de sua <b>totalidade</b>, difundida especialmente através  do senso comum, todos nós sabemos que o capitalismo superestruturado pela  ideologia neoliberal é nocivo ao menos a 2/3 da população mundial, incluindo a  nossa América-latina, mesmo que muitas vezes nos consideremos norte-americanos.Mas se todos conhecem a face mais predadora do capitalismo, por que este  ainda continua de pé, a todo vapor, sem indícios de uma crise estrutural? Com  certeza essa é uma reposta complexa de ser formulada, contudo, podemos  considerar alguns motivos mais nítidos que aparecem no horizonte e por isso  podem nortear nossa compreensão e busca para sua superação.</p>
<p><b>a)</b> <b>Crise  socialista</b></p>
<p>Consideramos que atualmente não há um projeto grandioso o suficiente que  faça frente ao capitalismo, pelo menos um projeto posto em <i>prática</i>,  capaz de prover as necessidades dos seres e ao mesmo tempo <i>superar</i> a  dinâmica capitalista excludente. Até o presente momento, temos de considerar a  incapacidade que os socialistas tiveram e têm, também me incluindo, de criar um  projeto capaz de difundir e explicar conceitos como socialismo, marxismo,  comunismo, coletivo, e tantos outros caros para uma revolução social. A  ditadura russa imposta pelo regime stalinista nas primeiras décadas do século  XX provocou profundas marcas na concepção dos homens ao socialismo, estigmatizando-o  como um regime de coerção e terror. Além disso, a propaganda intensiva da  ideologia neoliberal através dos meios de comunicação que controlam só  contribuíram e contribuem para a falência da “arma” mais importante para os  socialistas: o coletivo.</p>
<p>Palavras vazias, promessas inaplicáveis, utopias, são o que na maioria  dos casos encontramos no discurso daqueles que se dizem “socialistas”.</p>
<p>O que nós, socialistas, consideramos a crítica mais contundente ao  neoliberalismo, que é sua prática de fragmentação do ser, de causar a sensação  de incapacidade, de passividade nos homens, de torná-los coadjuvantes de sua  própria história, é justamente o que está acontecendo com a esquerda. Não só a  esquerda brasileira, mas a esquerda mundial, está despedaçada, antes um  quebra-cabeça a ser montado, agora um mosaico de peças incongruentes sem capacidade  de formar uma amálgama coerente. Há de se reconhecer a tarefa hercúlea de  unificar os homens em preceitos, valores, vontades mínimas, que sejam capazes  de reconhecimento mútuo, sem com isso retirarem sua “liberdade individual”,  seja lá o sentido desse termo nos dias atuais. Por isso acreditamos que é  preciso uma <i>revolução</i> no seio da  esquerda, exatamente da mesma forma que projetamos para todo o corpo social, em  suma, “arrumar a casa” ao mesmo tempo em que se busca “arrumar o quarteirão”. É  necessário salientar que essa <i>revolução</i> interna não significa eliminar as diferentes idéias germinadas no seio  socialista, imprimindo uma conduta totalitária aos adeptos dos ideais esquerdistas  para que sigam um projeto imposto “de cima para baixo”. Pelo contrário, é  eminentemente preciso que novas idéias surjam, que tenham competência  suficiente para formarem alternativas ao modo de vida capitalista, todavia, sem  com isso nos desviarmos do sentido máximo de nossa empreitada, da <i>revolução</i>, e não apenas empregar <i>reformas</i> de caráter imediato, e que não  contribuem em nada para <i>emancipar</i> a  população do jugo exploratório que o Capitalismo impõe.</p>
<p>Mas como podemos explorar toda a riqueza de idéias heterogêneas que  surgem no coração da esquerda, sem com isso não cairmos no erro recorrente de  fragmentação e isolamento dos vários movimentos sociais? A resposta com toda  certeza não virá de exemplos do neoliberalismo, pois seu objetivo é justamente  fragmentar, tornar as relações pessoais impessoais, a fim de garantir a  reprodução dos meios de produção e de consumo. Por mais simples que pareça, a  resposta está justamente na gênese do socialismo, no método-chave que Marx  utilizou para fundamentar sua teoria, na <i>dialética. </i>Temos de aplicar o método dialético a nós mesmos, perceber a riqueza das  contradições, entender que as <i>partes</i> interagem entre si para compor a <i>totalidade</i>,  ao mesmo tempo em que a totalidade interage com as partes, uma transformação  mútua, que mesmo com suas diferenças, não deixam de compor um todo. Assim como  Marx disse: “O concreto é concreto porque é a síntese de múltiplas  determinações, isto é, unidade do diverso.” (Marx, 1991: 16).</p>
<p>Dessa asserção sobre a ação recíproca (e não causa e efeito) entre as  partes constituintes da realidade e a totalidade, o conceito de <i>mediação</i> fundamenta-se essencial para a  compreensão do movimento e da relação dialética totalidade-partes-totalidade,  pois sem ela cometeríamos o erro metafísico de considerar os objetos  isoladamente. Pensamos em um automóvel, ele é o que podemos considerar o <i>todo</i>, e as peças que o compõe as <i>partes</i>. Cada peça tem sua função, elas  interagem entre si para que o automóvel possa funcionar. Sem uma roda, o  automóvel não seria capaz de se locomover, são as partes interferindo no todo. Ou  então uma peça com mau funcionamento que ao longo do tempo prejudicaria o  funcionamento de outras peças, são as partes interagindo entre si. Nesse caso,  também podemos dizer que para uma peça interagir com a outra, é preciso que o  automóvel (todo) seja o <i>mediador</i> entre as peças (partes): a troca de marcha que interage com o câmbio,  interagindo com o motor, interagindo com os eixos que, por sua vez, interagem  com as rodas, e assim por diante.</p>
<p>Da mesma forma a esquerda precisa perceber as <i>mediações</i> existentes dos diferentes segmentos que a compõe e que  forjam sua totalidade. É evidente que no âmbito prático-político essa tarefa  não é das mais simples, todavia, não podemos esquecer que um dos mais importantes  preceitos que balizam o socialismo é o <i>materialismo  histórico</i>, não aceitando a explicação dos fenômenos histórico-sociais se  não dentro dos próprios fenômenos, isto é, não há fórmulas mágicas e universais  a serem empregadas para resolver as diferentes situações de cada contexto  histórico, é preciso analisá-los em sua gênese e desdobramentos, tecer a teia da  complexidade social assim como Marx, Engels, Gramsci e tantos outros marxistas  fizeram.</p>
<p>Felizmente este caminho já começou a ser trilhado, para fazer justiça,  desde Marx e Engels este caminho está aberto, só que por muitas vezes fora  desviado. Na intenção de promover a revolução socialista, muitos negligenciaram  as condições materiais e ideológicas que se colocavam em oposição no cenário  histórico, buscando soluções de caráter imediato, o que por muitas vezes  deturpou o marxismo originário, ao menos sua <i>essência</i>. Faz necessário avaliar os erros e acertos daqueles que  nos precederam, além dos nossos próprios erros e acertos, conservar/dissolver/transformar  métodos, conceitos, teorias, etc., da mesma forma que Gramsci avaliou nas  palavras de Leandro Konder:</p>
<p style="font-size:9pt;margin-left:50px;margin-right:5px;">A desqualificação do  oponente serve com freqüência unicamente para disfarçar nossa fraqueza e nossa  incapacidade. Se condenamos em bloco a geração que nos precedeu, estamos nos  amesquinhando. Se não reconhecemos nenhuma grandeza nos que viveram antes de  nós, é porque nos está faltando grandeza, a nós. O sujeito que supõe que a  grandeza nasceu com ele é um parvo, no sentido etimológico do termo (em latim, <i>parvus</i> é pequeno) (Konder, 2001: 8).</p>
<p>Aliás, o italiano sardenho que escreveu sua obra monumental enquanto  estava preso pelo fascismo de Mussolini, tem muito o que nos ensinar. Gramsci  foi um dos poucos marxistas que percebeu a transformação das sociedades  capitalistas pós-modernas, a mudança de uma “guerra de movimento” para uma  “guerra de posição”, o que de forma simplificada significa que com a  complexidade que as sociedades capitalistas tomaram na passagem do século XIX  para o XX, ocorrera uma socialização da política, que agora não seria mais uma  exclusividade do Estado (sociedade política), mas também da <i>sociedade civil</i>, que emergira como  mediadora entre os elementos da <i>infra-estrutura</i> e o Estado propriamente dito, a mais completa das <i>superestruturas</i>. O surgimento da sociedade civil modificou a  relação do Estado com as massas, pois agora deveria deixar de utilizar o método  de coerção como único recurso para impor sua dominação, compartilhando essa  tarefa aos “aparelhos privados de hegemonia” incluídos dentro da sociedade  civil, que teriam como meta alcançar o consenso das massas através de  ideologias coesas (concepções de mundo) que, configuradas quantitativamente,  tornar-se-iam qualitativas para a hegemonia da classe capitalista.</p>
<p>Segundo Gramsci,</p>
<p style="font-size:9pt;margin-left:50px;margin-right:5px;">havia ocorrido uma  mudança da guerra manobrada, vitoriosamente aplicada no Oriente em 1917, para a  guerra de posição, que era a única possível no Ocidente. [...] No Oriente, o  Estado era tudo, a sociedade civil era primitiva e gelatinosa; no Ocidente,  havia uma justa relação entre Estado e sociedade civil e, diante dos abalos do  Estado, podia-se divisar imediatamente uma robusta estrutura de sociedade  civil. O Estado era apenas uma trincheira avançada, por trás da qual se situava  uma robusta cadeia de fortalezas e casamatas; isso se podia ver, mais ou menos,  de Estado para Estado, mas esta observação exigia um acurado reconhecimento de  caráter nacional (Gramsci, 1975: 866).</p>
<p>Os “aparelhos privados de hegemonia” eram entendidos por Gramsci como  elementos que gozavam de prestígio e legitimação histórico-social por grandes  estratos sociais, como os meios de comunicação, a Escola, a Igreja, etc. Os  “aparelhos privados de hegemonia” não estariam completamente sob o domínio do  Estado, mas resguardariam certa autonomia em relação à sociedade política  (Estado), o que permitiria que os socialistas também os utilizassem para  conquistar o consenso das massas, e implementar uma nova hegemonia.</p>
<p>Segundo Gramsci, a conquista de hegemonia deveria acontecer através de uma <i>catarse, </i>que para este significava a  passagem do momento econômico-corporativo (interesses econômicos de pequeno(s)  grupo(s)) ao ético-político (valores que se tornam universais ao corpo social e  fundamentam e legitimam a estrutura econômica), o que implica na passagem da</p>
<p style="font-size:9pt;margin-left:50px;margin-right:5px;">estrutura para as  superestruturas mais complexas; é a fase na qual as ideologias germinadas  anteriormente se tornam “partido”, colocando-se em confronto e entrando em  luta, até que somente uma delas ou uma combinação de ideologias tende a  prevalecer e a difundir-se sobre toda a área social, determinando, além da  unidade econômica e política, a unidade intelectual e moral, mediante um plano  não corporativo, mas “universal”, criando, assim, a hegemonia de um grupo  social fundamental sobre os grupos subordinados  (Gramsci, 1977: 1.583-584).</p>
<p>Em suma, a hegemonia socialista só seria conquistada nas sociedades  capitalistas pós-modernas através do consenso das massas, por meio de um  projeto coeso, tanto com soluções estruturais como superestruturais, capaz de  se erguer o suficiente como <i>alternativa</i> ao capitalismo.</p>
<p>Mas a quem estaria à incumbência de dar o primeiro passo para a  elaboração desse projeto socialista? Gramsci respondera essa pergunta sem  titubear: os <i>intelectuais</i>, ou a <i>intelligentsia.</i></p>
<p>Primeiro precisamos entender o que <i>são</i> os intelectuais para Gramsci, para depois compreendermos a tarefa que lhes fora  dada.</p>
<p>O pensador italiano começou logo levantando uma polêmica, ampliou o  conceito de intelectual de tal forma que todos os homens de algum modo o eram.  Sua alegação fora muito simples: até mesmo no trabalho que exigia o máximo de  esforço físico, não se poderia deixar de empregar características mentais, ou  seja, mesmo o operário que passa oito horas por dia repetindo o mesmo  movimento, não o conseguiria (re)produzi-lo sem uma coordenação motora que é  dada pelas relações cognitivas do cérebro. Contudo, era necessário identificar  aqueles que tinham a <i>função</i> de  intelectual dentro da sociedade, seres que exerciam características <i>organizativas</i>, desde um administrador de  empresas, passando por um tecnólogo, professor, e até um dirigente sindical.</p>
<p style="font-size:9pt;margin-left:50px;margin-right:5px;">Por intelectuais se deve entender não  só as camadas comumente entendidas com esta denominação, mas em geral toda a  massa social que exerce funções organizativas em sentido lato, seja no campo da  produção, seja no campo da cultura, seja no campo administrativo-político (<i>Gramsci</i>, 1975:  37).</p>
<p>Gramsci dividiu os <i>intelectuais</i> em dois grandes grupos. O primeiro grupo denominou-os de <i>intelectuais orgânicos</i>, pois tinham como meta organizar as  diferentes classes sociais, não se desprendendo das mesmas, ocorrendo uma  relação íntima entre os intelectuais orgânicos e as classes sociais as quais  representavam. Haveria ainda o segundo grupo, denominados de <i>intelectuais tradicionais</i>, os quais  foram formados por instituições que precedem o modo de produção capitalista:  membros da Igreja, das universidades, etc. Os intelectuais tradicionais poderiam  se vincular tanto as classes dirigentes como as dirigidas, porque adquiriram  certa <i>autonomia</i> em relação aos  interesses imediatos das classes sociais, o que não significa neutralidade em <i>objetivações</i>, isto é, nenhum intelectual  tradicional está <i>acima</i> das classes  sociais, de alguma forma ou de outra, ele sempre estará ligado a uma classe.  Sua singularidade é que sua participação na (re)produção das relações de  produção se dá de forma <i>secundária</i>,  pois sua função <i>precede</i> o próprio  modo de produção capitalista. É preciso salientar que em se tratando de  intelectuais formados por universidades, nem todos podem ganhar a denominação  de <i>tradicionais</i>, especialmente os  cursos que tem a <i>principal</i> função de  formar profissionais que garantam a (re)produção dos meios de produção e das  relações de produção. Estes, na verdade, são intelectuais <i>orgânicos</i>, pois estarão arregimentando as massas em diferentes  níveis, seja um administrador de empresas, um jurista, e até mesmo um engenheiro.</p>
<p>Conforme Lincoln Secco,</p>
<p style="font-size:9pt;margin-left:50px;margin-right:5px;">o intelectual é tanto o  acadêmico, o jornalista, o padre, o cineasta, o ator, o locutor de rádio, o  escritor profissional, quanto o intelectual coletivo (o partido e o sindicato,  cujos documentos e resoluções são produzidos por dirigentes profissionalizados  na política, geralmente a várias mãos, depois discutidos em grupos menores,  debatidos em grandes plenárias, aprovados com inúmeras emendas, até ser uma  elaboração inteiramente coletiva) (trecho do artigo <i>Intelectuais</i> publicado no site Gramsci e o Brasil – www.acessa.com/gramsci/).</p>
<p>No Brasil, não carecemos de intelectuais <i>tradicionais</i> com fins socialistas, personalidades como Alberto  Aggio, Caio Prado Jr., Carlos Nelson Coutinho, <i>Francisco Oliveira, Ivete  Simionatto, </i>Leandro Konder, Luiz  Werneck Vianna, Marilena Chauí, Michael  Löwy, Milton Temer, Sérgio Paulo Rouanet, são  citações de apenas alguns dos nomes mais proeminentes da esquerda brasileira,  os quais investigaram a fundo nossa realidade e totalidade, e que por isso seus  estudos são peças importantes dentro do quebra-cabeça brasileiro e, por que  não, latino-americano.</p>
<p>O que devemos repensar são nossos intelectuais <i>orgânicos</i>. Será que temos intelectuais  orgânicos o suficiente para que possamos iniciar um processo de crise de  hegemonia do bloco-histórico capitalista? E os nossos intelectuais orgânicos,  estão mesmo fazendo a função de <i>orgânicos</i> em seu sentido gramsciano? São questões importantes que devem ser investigadas.  O que presenciamos com freqüência é a cooptação desses intelectuais para as  relações capitalistas de forma indiscriminada: presidentes de sindicatos  fazendo acordos prejudiciais aos funcionários, ou mesmo de caráter imediato  (momento econômico-corporativo),  ONG’s se rendendo a lógica capitalista, professores e pesquisadores sem  iniciativas de transformação social, e assim por diante. Antes que se façam más  interpretações sobre a “guinada a direita” desses intelectuais orgânicos,  entendemos que ao menos no plano político não há “neutralidade” de  posições, pois mesmo aqueles que se rotulam como apolíticos, não estão nada  mais do que corroborando com a situação pré-existente.</p>
<p>Por isso nossa empreitada também deve focar as atenções sobre a questão  dos intelectuais orgânicos, sejam eles indivíduos ou coletivos, para que dentro  da diversidade dos segmentos sociais, respeitando suas peculiaridades, possa  haver um bloco coeso sem perder de vista, em última instância, a construção de  uma nova hegemonia, ao lembrarmos que &#8220;toda relação de hegemonia é  necessariamente uma relação pedagógica&#8221; (Gramsci, 1977: 1.331-2).</p>
<p>Não podemos esquecer que mesmo com a crise do socialismo, a esquerda é uma <b>realidade</b> no Brasil. A chegada do PT  ao poder é amostragem suficiente de que é possível, através de um projeto  contemplando a sociedade civil, desenvolver uma nova hegemonia. A tomada do  poder como “assalto” não cabe mais dentro da sociedade brasileira, é preciso  caminhar gradualmente para se conseguir o consenso das massas, primeiro sendo <i>dirigente</i> da sociedade civil para ser da  sociedade política (Estado). Contudo, não devemos fechar os olhos para a  direção que o PT tomou, especialmente ao tornar-se governo. Os escândalos de  corrupção – o que, diga-se de passagem, não foi exclusividade do Partido dos  Trabalhadores -, a “guinada para o centro”, como o próprio governo declarou  recentemente, a distribuição de ministérios de forma indiscriminada, cedendo cargos  ao ponto de comprometer a própria identidade do partido com a alegação de  conseguir uma “estável governabilidade”, as reformas de base que até hoje estão  intocáveis &#8211; reforma agrária, reforma tributária, reforma política -, são  apenas algumas das questões a serem repensadas pela esquerda para que não  ocorra o que aconteceu com o PT. O que não devemos negligenciar é que a  hegemonia petista não foi alcançada no “centro” ou na “direita”, mas sim  durante todas as décadas que lutou pela esquerda, e isso permite a  possibilidade de aplicar o conceito de <i>superação</i> as condições que se impõem no cenário histórico-social.</p>
<p>É nítido que a esquerda perde muito sem o seu principal “aparelho privado  de hegemonia”, pelo menos enquanto ainda for governo, pois sabemos que muitos  membros do PT continuam íntegros quanto as suas posições iniciais que, no  entanto, estão recebendo tratamento de indiferença frente à cúpula  político-burocrática que hoje dirige o PT.</p>
<p>Ao menos, uma das lições que nos cabe é buscar formar <i>socialistas,</i> e não petistas, “lulistas”  ou qualquer espécie de filiação aos partidos, pois a luta pela revolução social  não pode se limitar aos partidos de esquerda em seu sentido restrito, deve  contemplar os homens em sua totalidade, fiéis a um <i>projeto</i> político e não há um partido.</p>
<p><b>b) Crise de conteúdo</b></p>
<p>A crise socialista leva inevitavelmente a uma crise de conteúdo. Como  dissemos anteriormente, muitos foram e são aqueles que se intitulam  “socialistas”, “marxistas”, “oposicionistas” ou “esquerdistas” que, no entanto,  nada sabem realmente sobre os <i>conceitos</i> que cada palavra dessas carrega consigo. Militantes sem a mínima estrutura  conceitual podem caminhar pelas veredas do fanatismo, personalismo,  desvirtuando-se da verdadeira causa, o que, por muitas vezes, são manipulados  para outros fins, transgredindo um dos principais baluartes do marxismo que é a  auto-libertação dos explorados pela via do <i>conhecimento</i> de seu próprio papel histórico-social.</p>
<p>Além disso, em períodos de crise como este, não é raro o surgimento de oportunistas  que se utilizam de movimentos sociais para promoverem sua imagem, temos  exemplos fartos na história do Brasil e da América-latina, por isso é preciso  sempre estar atento. Essas atitudes não só são prejudiciais a imagem do socialismo,  como também um atraso para a conquista de nossos objetivos, pois aumenta o  descrédito das massas e fortalece as críticas feitas pelos neoliberais.</p>
<p>Para que atitudes como as citadas acima sejam cada vez mais raras, é  urgente a retomada conceitual do marxismo, não podemos nos dar ao luxo de  dispensar uma ferramenta prática-teórica tão poderosa quanto essa aos planos  almejados para a revolução. É exatamente a utilização da teoria marxista que  nos distingue de outros movimentos oposicionistas, pois dessa forma estamos fundamentados  em bases científicas, buscando analisar a realidade em sua totalidade, e por  isso nos propiciando a capacidade de alcançar uma concepção mais ampla da  dinâmica social. Sem isso somos apenas rebeldes, guerrilheiros, fundamentalistas,  grupos sem estrutura, sempre dispostos a criticar sem saber ao certo o que se  está criticando, ou mesmo, lutar por algo que não compreendemos.</p>
<p>Nesse sentido, nossa empreitada também se torna pedagógico-política,  porque acreditamos que assim como a(s) ideologia(s) capitalista(s), aliada(s)  as relações de produção material e reprodução das relações humanas, acabam  “orientando” as classes dirigidas a determinados comportamentos e concepções de  mundo que favorecem a(s) classe(s) dirigente(s), podemos também utilizar do mesmo  princípio para “libertar” as mesmas classes do jugo capitalista. Segundo  Gramsci, com a “conquista de uma consciência superior [...] cada qual consegue  compreender seu valor histórico, sua própria função na vida, seus próprios  direitos e deveres “ (Gramsci, 1975: 24).</p>
<p>A hegemonia socialista se fará ao passo que as condições objetivas e  subjetivas sejam <i>criadas</i> por todos  aqueles que nela acreditam. Cabe aos intelectuais tradicionais <i>iniciarem</i> um projeto “universal” de  transformação da “classe em si” de “classe para si”, ou seja, tornar consciente  as massas que elas formam um “bloco” ao evidenciar sua condição atual e seu  papel histórico, projetando-as de <i>dirigidas</i> para <i>dirigentes</i>. Aos intelectuais  orgânicos, cabe a tarefa de repassar esse projeto as massas, conforme as  condições de nível material e intelectual que cada grupo apresente, de forma  que elas <i>entendam</i> a si mesmo e àquilo  por que estão lutando, possibilitando que elas <i>interajam</i> nesse projeto pelas suas condições de exploradas e por  isso com grande riqueza de conhecimento <i>empírico</i>.</p>
<p>Esse projeto passa necessariamente pela <b>democracia</b>, ou melhor, pela sua transformação e ampliação em novas  bases. Pela democracia representativa, sua força está no voto, pensado em novos  paradigmas, não se permitindo em apenas eleger representantes, mas também  acompanhar as ações dos mesmos, com a finalidade de salvaguardar os direitos  conquistados, além do exercício reivindicatório de novos direitos democráticos.  Pelo viés da democracia direta, a participação de plebiscitos, de iniciativas  populares, a ampliação do envolvimento das massas em organismos coletivos  (sindicatos, associações, ONG’s, entidades estudantis, etc.), permitirá tanto a  progressiva tomada de consciência das massas, como tornará realidade uma crise  da atual hegemonia capitalista.</p>
<p>Porém, acreditamos que a retomada conceitual do marxismo não basta para  compreendermos a nossa realidade, e muitos menos encerra os artifícios que  circundam essa luta. Assim como o método dialético focaliza essencialmente as <i>transformações</i> sociais – ao menos fora  assim pela grande maioria dos marxistas -, é relevante também apontar os  holofotes para as <i>continuidades</i>, ou  seja, para a história da longa duração, das estruturas mentais que se conservam  nas sociedades e que, por isso, não deixam de ser menos importantes para a  compreensão da realidade.</p>
<p>Frente à situação atual das sociedades latino-americanas, também se faz  necessário repensarmos muitos termos em uso que já não comportam toda a totalidade  como a temos na atualidade. Um exemplo simples e importante pode ser constatado  com a questão do proletariado. Seu sentido mais corriqueiro, como operário de indústria,  não permite que a esquerda realize uma grande movimentação das massas nos  países latino-americanos por uma simples razão: hoje o operário de indústria  não corresponde à maioria dos empregados brasileiros. Com a inovação  tecnológica, e a mudança do capital industrial para o financeiro, as indústrias  se esvaziaram e cada vez mais emprega menos pessoas. A realidade brasileira  mostra que mais da metade dos trabalhadores estão no setor informal, fato  agravante e urgente ao se levar em conta que não estão amparados nem mesmo  pelas leis trabalhistas capitalistas. Além disso, é necessário colocar em pauta  a questão levantada por Jacob Gorender, ao afirmar que</p>
<p style="font-size:9pt;margin-left:50px;margin-right:5px;">a classe operária é <b>ontologicamente </b>reformista. Toda a  experiência histórico-mundial demonstra que, dia a dia, no transcurso cotidiano  de sua existência, a classe operária não ultrapassa as fronteiras da ideologia  do reformismo. Fora do cotidiano, trava, ás vezes, lutas sangrentas, de alta  intensidade no que se refere aos meios empregados, mas o que faz por objetivos  de reforma, não de revolução (Gorender, 2000: 38).</p>
<p>Por isso, nos parece justificável ampliar o termo proletariado para  amplas massas de trabalhadores explorados pelo modo de produção capitalista,  seja de forma mais antagônica (operários de indústrias), ou de forma secundária  (estratos sociais ligados essencialmente à (re)produção das relações de  produção, além das camadas excluídas).</p>
<p>Se por um lado ampliar o conceito de proletariado enriquece a compreensão  da realidade, por outro, deixa ainda mais complexo a busca de uma coesão.  Tentar acoplar diferentes camadas sociais, com diferentes níveis econômico,  intelectual e moral, não resta dúvida ser tarefa impossível sem que haja um  momento <i>catalisador</i> de todas essas  aspirações e concepções de mundo. Segundo Gorender,</p>
<p style="font-size:9pt;margin-left:50px;margin-right:5px;">Tal força social [...] só  poderá ser o <b>bloco de assalariados,  dirigido pelos assalariados intelectuais</b>. Um bloco constituído, portanto,  por seguimentos variados no âmbito do trabalho assalariado, tendo à frente  aqueles que são pagos para realizar tarefas intelectuais (Gorender, 2000: 230).</p>
<p>Mas o que e quem seriam os <i>intelectuais  assalariados</i>? Seriam eles os mesmos intelectuais concebidos por Gramsci? A  resposta correta seria nem sim, nem não. A revolução tecnológica feito pela  informática no século XX permitiu ampliar a produtividade dos meios de produção  em níveis tão elevados nunca antes imaginado pelo homem, ao mesmo tempo em que  possibilitou o “enxugamento” de trabalhadores nas áreas manufatureiras. A  conseqüência foi cada vez mais o emprego de profissionais nas áreas de P&amp;D  (Pesquisa e Desenvolvimento) e <i>Softwares, </i></p>
<p style="font-size:9pt;margin-left:50px;margin-right:5px;">expandindo sem cessar,  numa cadeia que vai desde a pesquisa básica até a projeção de <b>novos produtos</b>, a invenção de novos  materiais, a invenção <b>de novos processos  de produção</b>, a elaboração de modelos mais eficientes de organização de  produção, do marketing, da administração de vendas etc. (Gorender, 2000:  162-163).</p>
<p>Apesar das atividades empregadas pelos setores de P&amp;D e <i>Software</i> se constituírem,  essencialmente, de <b>conhecimento </b>e<b> informação</b>, ou seja, de resultados  imateriais, intangíveis, apropriáveis somente por via intelectiva, esses  resultados estão cada vez mais sendo “agregados diretamente à atividade das  empresas, como criadoras de valor e, por conseguinte, como integralmente  produtivos” (Gorender, 2000: 164). Em suma, as atividades de conhecimento e  informação,</p>
<p style="font-size:9pt;margin-left:50px;margin-right:5px;">em vez de bens físicos, são  bens <b>simbólicos.</b> Representam, porém,  um gasto de trabalho e cristalizam um novo valor, que se incorpora ao valor  final dos produtos e, do ponto de vista quantitativo, rivaliza com o valor  criado pela produção materializada. Inovações tecnológicas de certa importância  [...] tem custo elevadíssimo, que as empresas recuperam através de incorporação  fracionada por unidade de produto resultante da inovação (Gorender, 2000: 163).</p>
<p>O pessoal empregado para as atividades de P&amp;D e <i>Software</i> costumam ser mais bem remunerados por suas atividades do  que os trabalhadores manuais empregados nas fábricas, o que demonstra  claramente as profundas mudanças ocorridas especialmente nas últimas décadas do  século passado. A concorrência de mercado se acirra, e a busca por melhor  qualidade incorporada ao produto leva as empresas a investirem cada vez mais em  conhecimento e informação. Como visto, a classe industrial diminui  progressivamente, enquanto a classe de intelectuais assalariados vem crescendo  a passos largos. Assim, como elemento chave para a (re)produção dos meios de  produção e das relações de produção, os intelectuais assalariados podem  constituir como <i>dirigentes</i> das  classes e camadas dirigidas para a elaboração de um projeto anti-capitalista,  na medida em que deixem de contribuir para a hegemonia capitalista, e possam  adquirir a visão de conjunto do processo histórico ao alcançarem à consciência  da necessidade de uma <i>alternativa</i> socialista.</p>
<p>Assim entendido, os intelectuais de Gramsci e os intelectuais de Gorender  têm basicamente a mesma <i>função</i>, ou  seja, arregimentar as massas exploradas, ao serem o <i>sujeito</i> da revolução socialista. A diferença mais evidente está no  fato de que, para Gorender, ao longo do século XX, os intelectuais passaram a  formar uma <i>classe social</i> com a sua  inserção <i>direta</i> na (re)produção dos  meios de produção e das relações de produção, tornando-se <i>assalariados</i> e, por isso, mergulhados no caldeirão de antagonismos  criado pelo sistema capitalista. Contudo, não se deve acreditar que será uma  tarefa simples e rápida dos intelectuais assalariados se conscientizarem de seu  papel histórico-social, visto principalmente pelo fato de serem a classe com os  melhores salários e, portanto, dificultando uma ação <i>contra</i> a classe burguesa.</p>
<p>Partindo do pressuposto que a concorrência eleva e estimula a produção,  inclusive a produção <i>intelectual</i>, não  é difícil entender o aumento progressivo de instituições tecnólogas, formadoras  de profissionais ao ponto de saturar o mercado de trabalho, a fim de contratar  os mais bem preparados. Isso não só cria uma camada ociosa, como tende a  diminuir os salários por haver uma oferta maior que a demanda, permitindo,  assim, um progressivo descontentamento da classe dos intelectuais assalariados  frente à situação desfavorecedora. No entanto, apenas este fato não basta para  a tomada de consciência dos intelectuais assalariados, pois, como visto  historicamente, processo semelhante acontecera com o proletariado industrial, e  nem por isso criou uma consciência capaz de ultrapassar o pensamento reformista.  Não resta dúvida que essa <i>iniciativa</i> para a tomada de consciência tem maior probabilidade de acontecer por parte dos  intelectuais ligados as Ciências Sociais, tendo em vista que seu objeto de  estudo é justamente o homem e suas relações sociais, a visão de conjunto do  processo histórico desses intelectuais tende a alcançar uma totalidade  suficientemente capaz de promover ações éticas-políticas para transformações na  estrutura e superestrutura das relações econômico-sociais.</p>
<p>Além do foco no <i>sujeito</i> histórico para a revolução socialista, ou seja, os intelectuais assalariados, não  deixa de ser menos importante a captação das transformações estruturais e  superestruturais do momento histórico-social atual. Sabemos hoje, que mesmo  dentro das classes sociais, existem imbricados níveis de estrutura  econômico-social, especialmente dentro das classes <i>dirigidas</i>, o que dificulta, em muito, uma coesão das mesmas.  Pesquisar e compreender esses <i>níveis</i> se torna não apenas tarefa importante como essencial para a elaboração do  projeto socialista, ao passo que esse projeto torna-se processualmente mais  abrangente e, portanto, ocupando a totalidade. Temas como a condição da mulher  nas sociedades capitalistas, não pode ser negligenciado. Nas palavras de  Gramsci,</p>
<p style="font-size:9pt;margin-left:50px;margin-right:5px;">a formação de uma nova  personalidade feminina é a questão mais importante, de caráter ético e civil,  relacionada com a questão sexual. Enquanto as mulheres não puderem atingir uma  independência genuína em relação aos homens, e uma nova maneira de refletirem  sobre si mesmas e sobre o seu papel nas relações sexuais, a questão sexual  permanecerá rica em características mórbidas (Gramsci, 1978: 79).</p>
<p>Também deve-se levar em conta os diferentes tipos de preconceitos e  estereótipos produzidos no dia a dia, sejam eles de caráter étnico, econômico  ou cultural. A questão homossexual ao ser tratada sem valores morais  retrógrados. O progressivo alargamento da indústria cultural. O surgimento de  uma população com mais obesos especialmente em virtude do <i>fast food</i>. A socialização da violência em cidades de todos os  portes. Essas questões e tantas outras, são necessárias serem analisadas para  compreender o movimento recíproco das transformações estruturais que, por sua  vez, produzem uma superestrutura cada vez mais complexa no Brasil e no mundo.</p>
<p><b>c) O neoliberalismo</b></p>
<p>Podemos dizer que a queda do muro de Berlim fora a derrocada simbólica do  “socialismo real”, e a hegemonia do capitalismo e da ideologia neoliberal. De  lá para cá eventos novos ocorreram, pequenas crises econômicas aconteceram &#8211;  como previsto por Marx através de sua teoria dos ciclos e as crises na economia  capitalista -, contudo, sem com isso desestruturar a hegemonia capitalista.</p>
<p>Como ideologia dominante, o neoliberalismo não apenas fundamenta as  relações econômico-sociais capitalistas, como as (re)produzem em velocidade  cada vez maior, devido aos desdobramentos ocorridos pela dinâmica social.  Todavia, é preciso vislumbrar as <i>relações</i>/<i>interações</i> que existem entre as  condições materiais e ideológicas apresentadas no contexto histórico-social.  Com a complexidade que as sociedades capitalistas tomaram no último século, não  se pode afirmar que existam elementos determinantes, mesmo em última instância,  entre estrutura e superestrutura, se não uma ação recíproca que ao mesmo tempo  em que transformam, <i>se</i> transformam.  Interpretar o materialismo histórico e dialético de forma <i>dialética</i>, é fazer o mesmo que Gramsci fez ao interpretar a  sociedade capitalista como um “bloco-histórico”, em suma, não há uma <i>separação</i> ou <i>independência</i> entre estrutura e superestrutura, na concreticidade  elas se interagem, se confundem, formando um <i>ser orgânico</i> composto de diferentes <i>órgãos, </i>especialmente dentro da sociedade civil, onde elementos da  estrutura e superestrutura estão presentes e atuantes com a mesma vitalidade.</p>
<p>Se ocorre uma ideologia que privilegia a fragmentação do ser e a falência  do coletivo, devemos pressupor que existam elementos materiais que condicionam  e/ou reforçam esta estrutura subjetiva que orienta os seres a certa  interpretação da realidade, ou concepção de mundo.</p>
<p>Em qualquer circunstância, o homem é um ser social, ou seja, ele só  existe enquanto <i>sujeito</i> quando passa  a interagir com a natureza e os seus iguais. Por isso, a <i>relação</i> é <b>ontológica,</b> no  entanto, é preciso apreender da realidade qual a <i>forma</i> de relação hegemônica constituída entre os seres humanos, ao  menos nos países capitalistas. Como apontado por Marx, essa relação é <i>mediada</i> por <i>coisas</i>. Essas coisas, em grande medida, são fabricadas pelo próprio  homem, mais conhecidas por mercadorias. A fim de estabelecer uma relação íntima  entre os homens e as mercadorias, de tal forma que o ser tenha uma  interpretação cognitiva que essas mercadorias não <i>são</i> apenas dele, mas como <i>fazem</i> parte dele, a relação se eleva a um <i>fetiche</i>,  e assim a mercadoria passa a dominar o homem, uma inversão de valores entre o  criador e o criado. Essa inversão produz variados efeitos, o mais comum é o  consumo sem necessidade de mercadorias ao levarmos em consideração apenas o  tempo <i>real</i> de produtividade e  qualidade dos produtos, e não os elementos extrínsecos que circundam essa  relação de consumo.</p>
<p>Dessa forma, tanto os seres perdem a plena consciência do processo que os  aliena em relação às relações de produção e de consumo, como favorece a  expropriação do <i>capital</i> por aqueles  que são detentores dos meios de produção, independente desses donos serem conscientes  ou não do processo de fetichismo e alienação.</p>
<p>A decadência de mercadorias ou produtos utilizados/consumidos em coletivo  é apenas um exemplo. Com o surgimento de mercadorias de uso pessoal,  “personalizados”, não apenas favoreceu um maior consumo quantitativo dessas  mercadorias, como também dissolveu o <i>ser  coletivo</i>, ou seja, dificultou a germinação de idéias, valores, práticas em  comum, pois a vida em sociedade deixou de estar para os homens para estar para  as coisas. Todavia, culpar as coisas, ou seja, os bens materiais, pelo atual  estágio do ser humano, é o mesmo que continuar envolvido pelo fetichismo e  alienação, pois concede as coisas um poder que elas realmente não tem. Por  isso, só a tomada de consciência pode restabelecer a relação correta entre o  ser e as coisas.</p>
<p>Como visto, a ideologia neoliberal não é um conglomerado de idéias sem <i>sentido</i>, e sim uma concepção de mundo  muito bem definida e fundamentada em condições materiais, ao elevar a estrutura  para as superestruturas mais complexas, criando uma unidade econômica, política,  intelectual e moral, mediante um plano aparentemente não corporativo, mas  “universal”, estabelecendo a hegemonia de um grupo social fundamental sobre os  grupos subordinados. Portanto, interpretações “mecanicistas”, “economicistas”  ou “ideológicas” em nada contribuem verdadeiramente para a compreensão do  palimpsesto social quando não levam em consideração a totalidade, transgredindo  o materialismo histórico e dialético ao fragmentar a realidade para análise e  depois não reconstituí-la, de modo que as partes tornam-se distintas umas das  outras, sem qualquer correlação para sua existência e funcionamento dentro do  corpo social.</p>
<p><b>Considerações finais</b></p>
<p>Desde a formulação de <i>O</i> <i>capital</i>, talvez em nenhum momento da  História o socialismo e o marxismo estiveram em crise tão aguda como agora. As  forças capitalistas atuam de forma desenfreada sem qualquer oposição relevante,  as contradições inerentes ao sistema não culminaram na catástrofe quase  messiânica que muitos marxistas acreditaram que aconteceria ao se balizarem  pela <i>magnum opus</i> de Karl Marx. Não  resta dúvida que o capitalismo avançou para áreas que até então estavam sendo  ocupadas pelo socialismo, não apenas geograficamente falando, mas também  intelectualmente, por isso muitos se vêm “remando contra a corrente”, outros resignados  a uma sensação de derrota e, por vezes, ainda pior, de incapacidade, impelida  por uma espécie de determinismo histórico imposto pelas forças sociais.</p>
<p>Na busca de sairmos deste estado letárgico, o próprio Marx nos leva a  tona para o esclarecimento dos fenômenos ao afirmar que “toda ciência seria supérflua se houvesse coincidência  imediata entre a aparência (a expressão fenomênica) e a essência das coisas”  (Marx, 1991: 939).</p>
<p>O momento é propício para pensar grande em atos  pequenos, retomar progressivamente o espaço antes ocupado, não deixando,  contudo, de ganhar outros. Assim como Gramsci, combinar o pessimismo da  inteligência e o otimismo da vontade, é o melhor a se fazer para continuar a  explorar as vicissitudes do socialismo. Somar as forças, revisar estratégias,  caminhar pela linha tênue entre possível e improvável, paradoxalmente é o  mínimo e o máximo para os homens que buscam mudar sua própria realidade.</p>
<p>Os marxistas de hoje devem ter em mente que o  socialismo não é um fim imanente à sociedade e à sua história, mas um fim que  os próprios homens elaboram, sujeito a se concretizar ou não. Se as condições  objetivas impessoais são, num grau variável, determinadas e determinantes, a  realização dos fins, que os homens se propõem, inclusive do fim socialista,  estará sempre sujeita à indeterminação, dependente da luta dos próprios homens.  Nada mais acertada a afirmação de Gorender, ao dizer que</p>
<p style="font-size:9pt;margin-left:50px;margin-right:5px;">a luta é  certa, mas os resultados dela são incertos. Tal como as coisas se passaram até  hoje, tal como decorreu a história do século XX, não estamos ainda em condições  de saber que o capitalismo será seguramente sucedido pelo socialismo. Incerteza  que faz da luta pelo socialismo uma escolha pela qual são responsáveis, moral e  politicamente, os agentes da escolha (Gorender, 2000: 234).</p>
<p><b>Referências  Bibliográficas</b></p>
<p>AGGIO, A. <i>Gramsci</i>: A Vitalidade de um  Pensamento. AGGIO, A (Org.); Apresentação KONDER, L. São Paulo: Editora UNESP,  1998.</p>
<p>CHAUÍ, M. <i>O que é ideologia? </i>Coleção Primeiros  Passos. São Paulo: Brasiliense, 1980.</p>
<p>COUTINHO, C. N. <i>Gramsci</i>. Um estudo sobre seu  pensamento político. Rio de Janeiro: Campus, 1989.</p>
<p>ENGELS, F. <i>A origem da família, da propriedade  privada e do Estado. </i>15º ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. Trad. KONDER,  L., 1884/2000.</p>
<p>GORENDER, J. <i>Marxismo  Sem Utopia.</i> Rio de Janeiro: Editora Ática, 2000.</p>
<p>GRAMSCI, A. <i>Cadernos do cárcere.</i> Rio de  Janeiro: Civilização Brasileira, 1975.</p>
<p>________. <i>Os Intelectuais e a Organização da  Cultura.</i> 3ª ed. Rio de Janeiro: Civilização.</p>
<p>MARX, K. <i>O capital: crítica da economia política. </i>Trad.  de SANT’ANA, R.. 17ª edição. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1991 (vol.  I e II).</p>
<p>________. <i>Miséria da filosofia</i>. Trad. de  Luís M. Santos. São Paulo, Mandacaru e Estampa, 1990.</p>
<p>________. <i>Posfácio da segunda edição. </i>In:  Marx, Karl. O Capital: Crítica da Economia Política. Trad. de BARBOSA, R. e KOTHE,  F. R., São Paulo, Abril Cultural, 1983.</p>
<p>________ e ENGELS, F. <i>A ideologia alemã – </i>1º capítulo seguido das teses sobre Feuerbach<i>. </i>São Paulo, Moraes, 1984.</p>
<p>________. <i>O manifesto comunista</i>. Trad. de  Cosmo, M. L.. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1996. (coleção Leitura).</div>
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